sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Felipão x Sampaoli: um tirou o sono do outro antes, durante e depois de jogo histórico em 2014



Por Alexandre Lozetti e Martín Fernandez — São Paulo
 

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Felipão x Sampaoli: Técnicos se reencontram cinco anos depois de duelo pela Copa do Mundo
Lágrimas geraram polêmicas. Centímetros viraram tatuagem. O último encontro entre Luiz Felipe Scolari e Jorge Sampaoli está escrito na história do futebol. Brasil e Chile disputaram as oitavas de final da Copa do Mundo de 2014, no Mineirão. No tempo normal, empataram por 1 a 1. Nos pênaltis, deu Brasil.
Felipão comandava a equipe favorita, dona da casa e do elenco mais caro e pomposo. Sampaoli tentava equilibrar o cenário com a construção de uma equipe também talentosa, mas baseada em conceitos bem autorais.
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Relembre os melhores momentos Brasil 1 (3)x(2) 1 Chile
O Palmeiras x Santos deste sábado, às 19h (de Brasília), pelo Campeonato Paulista, pode ser considerado um remake. Felipão comanda os campeões brasileiros, um grupo que tem reservas cobiçados para qualquer equipe titular Brasil afora. Sampaoli é o protagonista de um Santos que tem enchido os olhos neste início de ano, apesar de um elenco carente – não tem um centroavante de ofício, por exemplo.
Em 2014, Felipão perdeu o sono por causa de Sampaoli. Sampaoli perdeu o sono por causa de Felipão. Antes, durante e depois de os pênaltis decidirem a classificação brasileira.

Antes do jogo

Brasil e Chile disputaram dois amistosos em 2013:
  1. 24 de abril: Brasil 2x2 Chile
  2. 19 de novembro: Brasil 2x1 Chile
Felipão saiu dos dois jogos com uma certeza: teria sérios problemas se tivesse de enfrentar o rival sul-americano na Copa. O sorteio de dezembro colocou Brasil no Grupo A e Chile no Grupo B. Prenúncio do duelo já nas oitavas de final.
Sampaoli conseguiu um feito na primeira fase. Fez o Chile derrotar a então campeã mundial Espanha e avançar em segundo lugar, atrás da Holanda. Imediatamente, a comissão técnica da seleção brasileira assumiu uma missão: convencer jogadores e opinião pública de que não seria mais fácil enfrentar o Chile do que a Espanha. Scolari, de fato, acreditava nisso.

Durante o jogo

Um dos confrontos mais tensos da Copa do Mundo teve início com lamentáveis vaias do público ao hino chileno, teve socos no vestiário, e terminou com lágrimas de medo e alívio.
Uma confusão generalizada no intervalo envolveu jogadores e membros das comissões técnicas. Acusado pelos chilenos de acertar um soco no atacante Pinilla, o então chefe de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, foi suspenso pela Fifa por uma partida.
Com Vidal longe da condição física ideal, Sampaoli adiantou seu craque para atuar muito perto do outro craque da equipe, Alexis Sánchez. Foi a estratégia para não perder o meio-campo e ter um setor ofensivo que causasse arrepios na defesa brasileira.
Felipão manteve a movimentação de outros jogos, com Neymar mais livre da responsabilidade de marcar, Hulk e Oscar preenchendo os lados de campo. David Luiz abriu o placar e Alexis empatou, ambos no primeiro tempo. Daí até o fim da prorrogação, a pontaria deixou os atacantes na mão.
David Luiz comemora o gol do Brasil contra o Chile — Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.comDavid Luiz comemora o gol do Brasil contra o Chile — Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com
David Luiz comemora o gol do Brasil contra o Chile — Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com
O Chile de Sampaoli alcançou um feito inédito naquela Copa do Mundo: foi a única seleção a ter mais posse de bola do que o Brasil:
  1. Brasil 58% x 42% Croácia
  2. Brasil 54% x 46% México
  3. Brasil 54% x 46% Camarões
  4. Brasil 49% x 51% Chile
  5. Brasil 51% x 49% Colômbia
  6. Brasil 52% x 48% Alemanha
  7. Brasil 58% x 42% Holanda
A Seleção, porém, finalizou muito mais: 23 chutes (13 no gol) contra 13 dos chilenos (5 no gol).
Uma dessas finalizações do Chile quase mudou a história da Copa, da Seleção, de Felipão... No último dos 120 minutos de jogo, Mauricio Pinilla recebeu na entrada da área e fuzilou. A bola carimbou o travessão de Julio César. Foi possível ouvir o barulho devido ao silêncio desesperador que tomou conta do Mineirão. O atacante fez questão de gravar o lance na própria pele, ao tatuar a trave do Mineirão nas costas.
Naquele interminável intervalo antes dos pênaltis, Thiago Silva sentou-se sobre a bola e chorou. Muitos o acusaram de não ter força suficiente para ser capitão. Outros o defenderam, valorizaram seu envolvimento com o jogo. Thiago não foi um dos cobradores.
Thiago Silva se emocionou com a classificação depois dos pênaltis — Foto: EFEThiago Silva se emocionou com a classificação depois dos pênaltis — Foto: EFE
Thiago Silva se emocionou com a classificação depois dos pênaltis — Foto: EFE
David Luiz, Marcelo e Neymar marcaram. Willian e Hulk erraram. Julio César defendeu as cobranças de Pinilla e Alexis Sánchez. Curiosamente, os únicos que haviam sido determinados por Sampaoli. O técnico argentino disse que os outros se “autoescalariam”, de acordo com a condição física e o nível de confiança.
A cobrança de Gonzalo Jara na trave definiu a classificação brasileira.

Depois do jogo

O Brasil de Felipão se classificou e todos sabem o que veio pela frente. A lesão de Neymar contra a Colômbia, o 7x1 para a Alemanha, e toda a comissão técnica deixou o cargo.

Por onde andou Felipão depois da Copa:

  • Julho/2014 a maio/15: Grêmio;
  • Junho/2015 a novembro/17: Guangzhou Evergrande (CHN), onde conquistou sete títulos;
  • Desde julho/2018: Palmeiras, onde conquistou o título brasileiro no ano passado.
Felipão comemora o título brasileiro do Palmeiras — Foto: Marcos RibolliFelipão comemora o título brasileiro do Palmeiras — Foto: Marcos Ribolli
Felipão comemora o título brasileiro do Palmeiras — Foto: Marcos Ribolli
Jorge Sampaoli cresceu os olhos. Ele sempre sonhou em trabalhar no futebol brasileiro. Além da admiração do país por ele, havia uma confiança de que poderia construir um futebol marcante em razão da quantidade de qualidade nos jogadores.
Houve tentativas de encaixá-lo na CBF, mas o veto a estrangeiros na época e a preferência por Dunga frustraram Sampaoli, que continuou no Chile para obter um título histórico: o da Copa América de 2015, em casa.
Em 2016, quando a paciência da CBF com Dunga já chegava ao fim, houve nova tentativa por parte de empresários de emplacar o argentino na seleção brasileira. O então diretor de seleções, Gilmar Rinaldi, derrubou as investidas.

Por onde andou Sampaoli depois da Copa:

  • Até janeiro/2016: seleção chilena, onde conquistou a Copa América;
  • Junho/2016 a maio/17: Sevilla;
  • Maio/2017 a julho/18: seleção argentina;
  • Desde janeiro/2019: Santos.
Sampaoli afaga Messi em jogo da Argentina — Foto: AP Photo/Victor R. CaivanoSampaoli afaga Messi em jogo da Argentina — Foto: AP Photo/Victor R. Caivano
Sampaoli afaga Messi em jogo da Argentina — Foto: AP Photo/Victor R. Caivano
Sampaoli jamais curou as feridas daquela eliminação nos pênaltis. Até hoje, é uma de suas maiores dores no futebol.
As memórias daquele jogo certamente encherão as cabeças de Felipão e Sampaoli quando se abraçarem à beira do gramado da arena do Palmeiras, neste sábado.
GLOBO ESPORTE 

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