quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Produção de sabonetes com ativos naturais move projetos sociais e gera renda para paraenses

BRASIL
Comunidade descobre potencial de ativos naturais que antes eram descartados. "O murumuru era tratado como praga, todo mundo queria tirar do terreno”, afirma o extrativista Gilson Santana.

Murumuru é uma das matérias primas fornecidas por comunidades tradicionais para fabricação de sabonetes. — Foto: Divulgação Natura/ Andreas Heininger
Sabonetes são essenciais no dia a dia, tem diversos cheiros e formatos, são ótimas opções de presente e nos últimos anos, com a ajuda da tecologia, tem garantido inovações com propriedades e fragrâncias fornecidos pela natureza. Andiroba, murumuru e cupuaçu são alguns dos insumos fornecidos pelas comunidades paraenses que moram no entorno de uma das maiores fábricas de sabonetes do Norte, produzindo cerca de 300 milhões de pastilhas por ano.
A fábrica, que fica num ecoparque, em Benevides, na região metropolitana de Belém, mantém relacionamento direto com a comunidade ao redor e gera oportunidades para os fornecedores de matéria prima, parceiros da multinacional. Das 34 comunidades que fornecem matéria prima em todo país, 18 são do Pará.
Segundo Raoni Silva, gerente de relacionamento e abastecimento da sócio-biodiversidade da Natura, a empresa trabalha em parceria com cooperativas e associações de pequenos grupos familiares.
“Nos últimos anos a gente passou a ter um trabalho com uma equipe própria fazendo esse acompanhamento junto aos grupos no campo. Acompanhamos boas práticas de manejo e cultivo que eles realizam, acompanhamos de modo geral desde a organização da produção, além de realizar auditoria junto a esses grupos dentro do princípio do biocomércio ético”, afirma Raoni.
Esses produtores passam a ter uma série de benefícios ao fornecer materiais antes não tão valorizados para fabricação de sabonetes.
“Garantimos o mercado formal, muitos desses insumos não eram comercializados. Fornecemos nota fiscal, pagamento em conta bancaria, ajudamos no desenvolvimento do grupo a valorizar espécies que até antes não eram valorizadas, conservando a floresta em pé. Eles podem provar a atividade de produtor e conseguir aposentadoria, auxílio gestação, além de ter uma nova geração de renda”, detalha ainda.

Ativos naturais

Em Santo Antônio do Tauá, nordeste do Pará, está uma das maiores comunidades fornecedoras de ativos naturais. Gilson Santana, presidente da cooperativa Camtuá, conta que cerca de dez famílias trabalham na extração de andiroba e murumuru.
“A gente trabalha desde 2007 pra Natura. Temos acompanhamento direto durante a produção. Eles dão o suporte desde equipamento de proteção individual a casinha de secagem”, conta Gilson.
Casado e pai de dois filhos, o extrativista começou no ramo incentivado pela mãe e afirma que antes da parceria com a empresa, nem imaginava o valor da matéria prima.
“A andiroba a gente sabia que era usada como óleo medicinal, mas o murumuru era tratado como praga, todo mundo queria tirar do terreno. Agora é fonte de renda”, afirma.
“Para a maioria dos cooperados é um complemento da renda. E é uma satisfação poder ver nos comerciais passar aqueles produtos e saber que saiu daqui do estado, pois conseguimos extrair e preservar”, garante o extrativista.

Fábrica de sabonetes

80% dos sabonetes de toda Natura são fabricados em Benevides, no Pará — Foto: Divulgação/ Natura80% dos sabonetes de toda Natura são fabricados em Benevides, no Pará — Foto: Divulgação/ Natura80% dos sabonetes de toda Natura são fabricados em Benevides, no Pará — Foto: Divulgação/ Natura
A fábrica de sabonetes da Natura no Pará conta com 333 funcionários, sendo que 48% dos trabalhadores são moradores do entorno do ecoparque. De acordo com o gerente da fábrica, David Souza, a produção ocorre em três turnos e dura 24 horas por dia.
Ele conta os segredos dos sabonetes, que não levam gordura animal em sua composição. “Pra você fazer um sabonete, precisa de soda cáustica e gordura vegetal, essa é uma característica diferenciada nossa para outras empresas brasileiras e internacionais: nós utilizamos 100% de uma gordura vegetal”, ressalta David, que veio morar no Pará para acompanhar de perto o desenvolvimento da fábrica.
A soda e a gordura vegetal são expostas ao vapor e formam uma massa chamada “noodle”. Esse “noodle” vai passar por um processo de mistura, com fragrâncias, materiais que vão colorir o sabonete. Essa mistura vai dar forma a massa do sabonete. Depois vai passar por um processo de prensagem, que gira em torno de 15 graus negativos. Nesse momento, quando faz o sabonete em si, a massa gira em torno de 45 a 50 graus e é prensada a uma estrutura a menos 15 graus. O choque térmico é que dá a consistência que conhecemos. Então, vem a etapa da embalagem e está pronto o sabonete.
“Um dos meus desafios na vinda para Belém é conseguir tirar cada vez mais da produção. Hoje a nossa produção anualizada gira em torno de 300 milhões de pastilhas. Em termos de faturamento, estamos falando de uma média de R$ 300 a R$ 400 milhões”, afirma o gerente, que garante ainda que a produção de forma eficiente compensa os altos custos com o frete do Pará para os outros estados.
Quase metade dos funcionários da fábrica são de Benevides.  — Foto:  Samia Rique/ Agência EkoQuase metade dos funcionários da fábrica são de Benevides.  — Foto:  Samia Rique/ Agência EkoQuase metade dos funcionários da fábrica são de Benevides. — Foto: Samia Rique/ Agência Eko

Responsabilidade social e ambiental

No último dia 26 de dezembro, a fábrica abriu as portas para comunidade do entorno conhecer como é feita a produção de sabonetes e os projetos de responsabilidade ambiental e social, durante o VII Painel de Comunicação Social e Ambiental do Ecoparque.
Dezenas de vizinhos da fábrica participaram do encontro. A moradora Camila Soares foi convidada para a visita, ela faz parte do projeto Conhecimento e Alforria da Mulher.
“O projeto tem a meta de trabalhar com mulheres vítimas de agressão, violência doméstica e trabalhar com a família, agressor, filho. Ás vezes a mulher está em casa e não tem conhecimento. A gente tira a mulher do perigo e dá sobressalto para ter dignidade financeira e sair dessa situação de risco e ter mais visibilidade com empreendedorismo. Ás vezes a mulher fica submissa ao homem dentro de casa porque ele que põe a comida em casa. Não tem onde ir. A gente chama essa mulher e apresenta meios pra ela se capacitar”, explica Camila.
Lucia Helena de Souza também é uma “flor” – como as integrantes do grupo são chamadas. Ela conta que o grupo começou em maio e com a ajuda da empresa se disseminou rapidamente na comunidade.
“Já somos mais de 300 mulheres, não só de Benevides. Lá encontraram pessoas capacitadas no desenvolvimento empreendedor”, ressalta Lúcia, que agora trabalha com cama elástica para festas infantis.
“O ecoparque não é apenas a fábrica, ele foi concebido para ser simbiose industrial, para que outras empresas e a comunidades conheçam como a gente produz, a responsabilidade ambiental para mostrar que dá pra interagir pessoas físicas com uma corporação de forma sadia e que não tenham sensação que estamos lesando o patrimônio cultural e ambiental da região”, garante David Souza.
Comunidade do entorno da fábrica é convidada, anualmente, a conhecer o trabalho da empresa.   — Foto:  Samia Rique/ Agência EkoComunidade do entorno da fábrica é convidada, anualmente, a conhecer o trabalho da empresa.   — Foto:  Samia Rique/ Agência EkoComunidade do entorno da fábrica é convidada, anualmente, a conhecer o trabalho da empresa. — Foto: Samia Rique/ Agência Eko
G1 PA

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