sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Quatro histórias de letalidade da PM mais violenta do país

BRASIL 

 Abinoan Santiago e Denise Muniz, da Agência Pública

Foto: Gilberto Pimentel/Agência Publica 


Willian Natividade Silveira, morto no ano passado aos 27 anos, é um dos 184 mortos pela Polícia Militar (PM) amapaense desde 2015, segundo os dados obtidos pela reportagem via Lei de Acesso à Informação (LAI).A versão mais comum dos policiais para as mortes praticadas é a troca de tiros, também conhecida como “resistência seguida de morte”, um expediente comum utilizado por policiais em todo o país quando pretendem forjar uma execução.Ao que indicam as investigações, a morte de Willian também ocorreu em outra alegada troca de tiros com a PM, em 22 de março, à luz do dia, por volta de 7h30 da manhã, em uma “área de ponte” no bairro Congós, na zona sul de Macapá.Segundo a versão da polícia, Willian morreu ao tentar atirar na guarnição. Segundo a família, foi uma armação.“Ele pedia ‘por favor, não me matem’ e dizia ‘eu perdi, eu perdi’”, lembra Jéssica Moura da Silva, de 27 anos, autora do vídeo que mostra a vítima nos fundos da casa onde morava, instantes antes de ser morto – Jéssica é ex-mulher de Willian.As imagens exibem os policiais pisando na cabeça da vítima deitada ao chão. Um dos PMs, ao ver que vizinhos acompanhavam a ação, mirou a arma para um dos moradores. Com a comoção ao redor, os militares levaram Willian para dentro do imóvel. “Naquele dia estava tudo calmo aqui na ponte. Todos dormiam. A atual mulher do Willian ouviu barulho dos cachorros latindo e, quando foi ver, eram os policiais. O Willian fugiu, pulando no lago, mas os policiais começaram a atirar, então, ele voltou”, narra Jéssica.

Ela conta que buscou o celular e se escondeu no banheiro da sua casa, que é vizinha à de Willian, para filmar a ação policial. A jovem diz que, ao entrarem na casa com o ex-marido, os militares colocaram uma toalha preta em uma das janelas com vista para a ponte, para que os vizinhos não pudessem enxergar o que ocorria no imóvel.“Nem a mulher do Willian conseguiu entrar na casa. Foi quando o ouvimos pedir novamente para não ser morto. Ele gritou o meu nome e veio o disparo. Todos ficaram desesperados. Nesse momento, um policial saiu falando ao rádio informando troca de tiros para outras guarnições. Todos gritaram que era mentira, que não havia troca de tiros. Impossível ele [Willian], sozinho nesta cozinha pequena, trocar tiros com esses policiais”, sustenta Jéssica.Um dos policiais foi à viatura e retornou com um objeto, segundo a ex-mulher de Willian, semelhante a uma arma de cano vermelho, que estava dentro do seu colete. Essa versão foi confirmada por outras cinco testemunhas, de acordo com depoimentos que constam no inquérito do Ministério Público (MP), que investigou o assassinato.Jéssica tinha dois filhos com Willian, de 3 e 5 anos. Ela conta que o mais velho chora muito ao lembrar-se do pai e tem pavor da polícia. “Ele tem muito medo da polícia, corre e chora quando os avista na ponte. Ele diz: ‘Foi essa polícia que matou meu papai’. Eu fico tentando acalmá-lo”, disse emocionada.Por ter feito o registro dos momentos que antecederam o assassinato de Willian e depois de depoimento ao Ministério Público, Jéssica afirma que recebeu uma ligação telefônica com ameaças de morte.“Ligaram de número desconhecido, me aconselhando a desistir, dizendo que era melhor não continuar com a denúncia, porque quem perderia era eu. Era voz de homem e falava que o Willian era bandido. Eu disse que não importava. Ele tinha seus erros, mas nunca matou ninguém. O homem falou que eu estava correndo risco e que quem se mete com a polícia só perde”, lembra.A mulher comunicou o episódio à Promotoria de Justiça e, apesar do medo ao sair à rua, não pensa em desistir.

Willian tinha passagem pelo crime de roubo | Foto: arquivo pessoal

O MP denunciou a morte de Willian. A ação criminal tramita contra os policiais envolvidos no caso: os sargentos Adrielson Maia dos Santos e Luiz Carlos Nunes Amaral e os soldados Edson Guedes da Silva e Sebastião Santos das Merces Filho.Charles Bordalo, advogado dos réus, afirma que os clientes agiram no estrito cumprimento do dever legal. A comunidade da rua teria chamado a polícia por causa de ameaças proferidas por Willian, diz ele.“Os policiais foram para lá, provocados, chamados pela população, porque esse rapaz [Willian] estava praticando crimes”, garante. O MP contesta: não existiu chamado para viatura naquele dia para aquele endereço.Bordalo afirma que três policiais estavam dentro da residência: dois foram vistoriar os compartimentos do imóvel, enquanto um ficou com a vítima. O advogado conta que a vítima morreu depois de ter sacado uma arma que estava embaixo de algumas roupas sobre a mesa da cozinha. Willian teria se levantado depois de ter sido autorizado pela polícia a tomar água. Antes, os militares teriam permitido que o rendido trocasse de roupa.
“Como ele [Willian] estava sujo, foi autorizado. Até que ele trocasse a bermuda. O policial falou que, como ele seria conduzido, iria sujar a viatura. Estava tudo tranquilo. O Natividade pediu para tomar água e, nesse momento, puxou a arma que estava escondida, para atirar no policial Adrielson. Foi então que o Adrielson atirou nele”, defende Bordalo.O MP afirma que não há motivos para a mudança de tratamento com Willian, praticado pelos policiais fora da casa e depois dentro do imóvel, a ponto de deixá-lo livre para trocar de roupa e beber água por conta própria.Uma testemunha ouvida na investigação afirma que por uma das frestas da casa foi possível ver Willian ajoelhado. A posição da vítima, vista pelo vizinho e a perícia, converge com o fato de o tiro do policial ter partido de cima para baixo.

fonte: Ponte ORG

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