Militantes feministas acusam atriz Catherine Deneuve e intelectuais de 'aliadas dos porcos'
Atriz e outras mulheres publicaram artigo em que defendem 'liberdade' dos homens de 'importunar' as mulheres e apontarem suposta 'onda purificadora'
Atriz Catherine Deneuve assinou carta em que defende
"liberdade" dos homens de "importunar" mulheres Chun FOTO: Hei
Cheung/Flickr CC
Em outro texto, intitulado "Os porcos e seus aliados
têm razão de ficar preocupados", as feministas condenam o manifesto
contracorrente, dizendo que ele tenta abafar um debate durante muito tempo
oprimido pela sociedade. "Somos vítimas de violências, não temos vergonha
e estamos determinadas a acabar com as violências sexistas e sexuais",
escrevem.
Acusando as cem signatárias do campo opositor, entre elas a
atriz Catherine Deneuve e a crítica de arte Catherine Millet (autora do livro
"O Outro Lado de Catherine M.") de terem se aliado aos
"porcos" – em alusão ao movimento #MeToo e #BalanceTonPorc, surgidos
após as denúncias contra Weinstein – Caroline de Haas afirma que as mulheres
que consideraram a onda de denúncias uma questão de "puritanismo" são
"em sua maioria reincidentes na defesa de pedófilos e na apologia do
estupro". Em março passado, Deneuve, de 74 anos, gerou polêmica ao
defender na televisão o cineasta Roman Polanski, acusado de ter estuprado uma
menor há mais de 40 anos nos Estados Unidos.
No texto publicado no Le Monde, as atrizes, escritoras,
pesquisadoras e jornalistas dizem que "o estupro é um crime". Porém,
consideram que "paquerar de forma insistente ou desajeitada não é um
delito, assim como o galanteio não é uma agressão machista". Redigiram o
artigo Sarah Chiche (escritora e psicanalista), Catherine Millet (crítica de
arte e escritora), Catherine Robbe-Grillet (atriz e escritora), Peggy Sastre
(autora, jornalista, tradutora) e Abnousse Shalmani (escritora e jornalista).
Deneuve e dezenas de outras mulheres endossaram as colocações.
"Não nos reconhecemos neste feminismo"
Há homens que foram "sancionados no exercício de sua
profissão, obrigados a se demitir, quando seu único erro foi ter tocado um
joelho, tentado ganhar um beijo, falado coisas 'íntimas' durante um jantar
profissional, ou ter enviado mensagens de conotação sexual a uma mulher que não
sentia uma atração recíproca", asseguram as mulheres que assinam o artigo
do Le Monde.
"Enquanto mulheres, não nos reconhecemos neste
feminismo", diz o coletivo, acrescentando que defende "uma liberdade
de importunar, indispensável à liberdade sexual".
Governo reage
O manifesto polêmico também gerou reações no governo. A
secretária de Estado para a Igualdade de Mulheres e Homens, Marlène Schiappa,
disse pelo Twitter desconhecer homens que tenham sido denunciados por terem
colocado a mão num joelho feminino, como minimizou o artigo
"tolerante" com os avanços masculinos.
Em outro tuíte, a ex-ministra francesa dos Direitos das
Mulheres Laurence Rossignol lamentou "esta estranha angústia de deixar de
existir sem o olhar e o desejo dos homens, que leva mulheres inteligentes a
escrever enormes estupidezes".
"Insulto às feministas"
Este é "um artigo para defender o direito de agredir
sexualmente as mulheres e para insultar as feministas", dispara Caroline
de Hass. "Toda vez que os direitos das mulheres evoluem, que consciências
são despertadas, as resistências aparecem", constata a militante. Ela
lembra que diariamente dezenas de mulheres são vítimas de assédio sexual e
estupro na França.
Comentando ponto a ponto os argumentos do manifesto apoiado
por Deneuve, as militantes feministas consideram que a argumentação
"mistura deliberadamente uma relação de sedução, baseada no respeito e no
prazer, com uma violência".
(*) Publicado em RFI
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