quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

MUNDO

O iminente desastre ambiental que ameaça Hong Kong

Com apenas três de seus 13 aterros sanitários ainda abertos, Hong Kong vive uma crise do lixo
Lam Yik Fei/The New York Times

Ao entrar no campus da Universidade Chinesa de Hong Kong é difícil imaginar que a região esteja enfrentando um desastre ambiental. Em uma manhã de primavera no arborizado campus, que fica no setor chamado Novos Territórios, é possível ver o mar reluzindo sob o olhar da cidade e das íngremes montanhas ao fundo. Não há uma única garrafa de plástico à vista.Mas as aparências enganam. Hong Kong pode estar limpa na superfície, mas seus serviços públicos estão se esforçando para manter o lixo no lugar.Apesar das tentativas de controlar o problema, a região produziu 3,7 milhões de toneladas de resíduos urbanos em 2015 - a maior quantidade em cinco anos.Para lidar com tanto lixo, a cidade conta com 13 aterros sanitários, que agora estão sendo reutilizados como parques, campos de golfe e quadras esportivas. Apenas três ainda estão abertos. Em alguns anos antes eles também começarão a transbordar."Se Hong Kong continuar assim, alcançaremos o ponto de ruptura até 2020", diz Chan King Ming, quem a reportagem da BBC encontrou no campus da Universidade Chinesa. A estimativa citada por ele é apoiada pelo próprio Departamento de Proteção Ambiental de Hong Kong.

Chan é cientista ambiental e político do Partido Neo Democrata de Hong Kong, experiência que lhe deu uma visão profunda das dificuldades sociais, econômicas e tecnológicas de solucionar o problema da cidade. "Estamos nos movendo em direção à urbanização insustentável", diz Chan. A situação pode servir de aviso para outros países, já que mais e mais pessoas sentem atração pela vida nas cidades. Isso significa que ambientalistas de todo mundo estarão assistindo atentamente os próximos passos da região.

Aumento da pressão

Com cerca de sete milhões de pessoas, amontoadas em uma área de 2 mil quilômetros quadrados, Hong Kong é atualmente o quarto lugar mais densamente povoado do globo (depois de Macau, Cingapura e Mônaco). Com espaço tão escasso, não há muitas áreas disponíveis para construir novos aterros sanitários.

O turismo apenas aumentou a pressão. À medida que as indústrias da região se mudaram para a China continental, Hong Kong se esforçou para atrair mais visitantes do continente e, assim, movimentar sua economia.A culinária local e os shoppings centers estão entre as atrações principais, o que estimula os turistas a gerar resíduos adicionais de alimentos e embalagens."Precisamos deles para impulsionar nossa economia, mas também há inconvenientes", admite Chan.

Além dessas questões, está o status de Hong Kong como "economia livre" dentro da China, o que leva o governo a relutar para impor regulações que possam ameaçar o comércio."A região é tida como a economia mais livre do mundo, então os funcionários governamentais tentam fazer o máximo para não intervir nas linhas de produção ou nos comportamentos do consumidor", afirma o cientista ambiental.Por isso, hoje há poucas normas sobre uso de embalagens ou qualquer outra medida que possa reduzir o desperdício.Assim como muitos outros países, Hong Kong enviava parte de seu lixo à China continental para reciclagem. As empresas chinesas podiam aproveitar a sucata, o plástico e os metais presentes em produtos eletrônicos, mas o país também recebia resíduos inutilizáveis e contaminados (incluindo restos de comida e materiais médicos), o que criava problemas ambientais para suas cidades.Como resultado, o governo chinês decidiu proibir a importação de resíduos não processados - um movimento conhecido como "Green Fence" (cerca verde, em tradução livre) - na esperança de que outras nações higienizassem seu lixo antes de vendê-lo.No entanto, Hong Kong ainda não desenvolveu suas próprias plantas de reciclagem o suficiente para compensar a atitude da China. "Então, coisas que teriam sido enviadas para a China para serem processadas estão apenas sendo colocadas no aterro", diz Doug Woodring, ativista ambiental e cofundador da ONG Ocean Recovery Alliance.

Como se os próprios resíduos não fossem suficientemente graves, as praias de Hong Kong enfrentam uma crescente chegada de lixo pelo mar. Os ambientalistas não têm certeza de sua origem, mas a onda de resíduos parece ocorrer periodicamente com a mudança dos padrões climáticos."Temos coisas de Taiwan descendo e das Filipinas e do Vietnã subindo", diz Woodring. O material também pode estar saindo da China continental - possivelmente por meio de despejos ilegais ou inundações sazonais que levam o lixo para o mar. "Muitos dos objetos têm escrita chinesa, mas não sabemos onde entraram na água".

FONTE: BBC 

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