domingo, 8 de outubro de 2017

SAÚDE

Procura por sêmen importado cresce 2.500% no Brasil, diz Anvisa


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De acordo com a agência, barateamento dos custos de inseminação artificial ajuda a explicar o aumento Foto: Reprodução


As mulheres estão buscando cada vez mais a inseminação artificial como forma de engravidar. A procura por sêmen importado entre os casais heterossexuais, homoafetivos e as mulheres solteiras teve alta de 2.500%. Os dados estão no 1º Relatório de Amostras Seminais para uso em Reprodução Humana Assistida, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e apontam que o aumento aconteceu nas importações de sêmen americano entre 2011 e 2016. No Brasil, o comércio de sêmen é ilegal, mas a importação é permitida. 
Os casais homoafetivos representam a maior evolução nos pedidos de importação. Entre 2014 e 2016, houve aumento de 279% no número de autorizações para o procedimento. Mulheres solteiras representam o segundo salto nos números: 114%. O percentual de casais heterossexuais que tiveram os pedidos autorizados também evoluiu: foram 85% a mais nos últimos três anos.
Além da legalização do casamento homoafetivo, a explicação desse resultado está relacionada ao barateamento do procedimento. O valor, que já foi cerca de US$ 10 mil no início dos anos 90, hoje gira em torno de R$ 3,5 mil.
“Um exame de HIV (exigido aos doadores) custava em torno de R$ 3 mil. Hoje, está em R$ 100,00. Tem mais gente usando, os casais gays estão também com mais segurança de fazer o procedimento, o que contribui para o aumento”, diz Condesmar Marcondes, médico especialista em reprodução humana assistida.
Mudanças
A independência das mulheres e os exemplos na mídia também contribuíram. É o caso de Karina Bacchi. A atriz de 40 anos deu à luz Enrico em agosto. Sua gravidez foi por meio da fertilização in vitro e ela utilizou sêmen importado dos Estados Unidos. 
Segundo Marcondes, a possibilidade de ver fotos e ter um contato indireto com o doador americano justifica a escolha pelo sêmen de fora. “É possível, através de um intermediário, tirar dúvidas com o dono do espermatozoide”, diz. 
A diferença de valor entre o tratamento com sêmen nacional e importado é de cerca de R$ 1,5 mil a mais para quem optar por trazê-lo do país americano.
No Brasil, é proibido realizar comércio de espermatozóides. Os doadores são anônimos. No entanto, o médico lembra que há, sim, muitas informações dos doadores nacionais. “Cor da pele, dos cabelos e dos olhos, hobbies... esse tipo de informação também está disponível no sêmen nacional”.
'Controle' do bebê é um dos motivos 

Ter o “controle” sobre o filho que está nascendo é uma das razões que explicam esse aumento no número de importações de sêmen, na visão da psicóloga Gisela Monteiro, dona de uma página do Facebook e do canal Falatório com Gisela.
“Se tem uma coisa que angustia o ser humano é o ‘não saber’. Essa característica é uma tentativa de um controle sobre essa criança. Cor e pele podem ser definidas, mas as características psicológicas não são reproduzidas no embrião. As tendências podem ou não ser reproduzidas, porque depende de diversos fatores, como núcleo familiar, cultura, entre outros. É compreensível. Mas achar que esse controle vá existir é uma ilusão”, diz. 
A especialista diz que essa é uma das explicações que leva à depressão pós-parto, já que a idealização do filho é frustrada pela realidade, quando ele nasce. “Por isso, atualmente, muitas mulheres acabam pensando muito antes de ter um filho. Se formam, trabalham, estabilizam a vida e só nessa hora é que decidem”.
A psicóloga também ressalta que muitas mulheres ainda sonham com a relação perfeita. “Ainda existe essa noção de amor. Mas como ninguém é perfeito, as pessoas desistem nos primeiros conflitos”. 
Aceitação
Com a regulamentação do casamento gay, em 2011, houve mais segurança jurídica a esses casais, que começaram a pensar em formar uma família. Para a psicóloga, se antes pensava-se na relação com um parceiro para a vida toda, hoje já há a noção desta formação.
“Como a homossexualidade ainda tem muita estigma e preconceito, o fato de ter uma segurança legal dá mais tranquilidade aos casais. Hoje, temos uma rejeição à patologia da homossexualidade. Então, essa população se sente mais confortável”. 
'Pioneira' recorda reprodução assistida
A santista Regina Bechelli Monteiro, de 52 anos, foi uma das primeiras da região a realizar um procedimento de reprodução assistida. Ela é, até hoje, paciente do médico Condesmar Marcondes. Sua filha, Mariana, completa hoje 24 anos. 
“Foi um procedimento difícil, doloroso e desgastante, mas eu faria tudo de novo”. Cerca de oito anos após ter realizado o procedimento, ela engravidou naturalmente de Júlia, que hoje tem 15. 
Ela estava casada há um ano, em 1988, quando descobriu uma endometriose nos ovários e também tinha o útero bicorno (anomalia no formato). Regina achou que estava grávida, mas era a doença que alterava seu organismo. 
Depois da descoberta, Regina entrou em tratamento para gravidez por dois anos. “No entanto, era muito desgastante por causa dos medicamentos e também muito caro”, lembra. Foram seis anos de tratamento, em diversos médicos, até conhecer Condesmar. Foi então que ela começou a reprodução assistida e conseguiu realizar o sonho de ser mãe. “Foi na segunda tentativa”.
Método fez Regina engravidar de Mariana (à dir.); após oito anos, teve Júlia naturalmente (Foto: Carlos Nogueira)
Apoio é fundamental
Mesmo com coragem para repetir a dose, a funcionária pública ressalta que o tratamento é difícil. “Alguns exames são muito doloridos. Na época, eu estava casada e o pai da Mariana era presente. O apoio psicológico do pai, da família e amigos é muito necessário, porque é uma luta para engravidar e também para levar a gravidez até o final”.
Regina teve diversas complicações, como sangramentos, paralisia facial e uma hemorragia aos 7 meses, quando a placenta descolou. Mariana nasceu com 8 meses. Quando Regina tinha 36 anos, veio Júlia. “Foi uma surpresa para mim, para o médico, para todo mundo. Uma felicidade enorme”.
Sobre o tratamento
“As pessoas se recusavam a falar disso. Quando a Mariana nasceu, vieram tias minhas me visitar querendo saber se ela era ‘normal’. Informação ajuda. Há muita gente que não quer falar que faz o tratamento, ainda há muitos tabus e não entendo o porquê. Mas, hoje, eu sou muito feliz e, quanto mais eu puder falar sobre isso, eu vou falar", afirma Regina.
A funcionária pública relembra os procedimentos do tratamento. “Alguns exames são muito doloridos. Na época, eu estava casada e o pai da Mariana era presente. O apoio psicológico do pai, da família e amigos é muito necessário, porque é uma luta para engravidar e também para levar a gravidez até o final”.

A Tribuna

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