terça-feira, 5 de janeiro de 2016

ECONOMIA

Prisão de André Esteves atrasou planos de fusão entre Oi e TIM


A prisão do banqueiro André Esteves atrasou os planos do BTG Pactual de fechar uma proposta com a Oi e o fundo russo LetterOne para uma fusão com a TIM no ano passado, como previam os sócios.
A Folha apurou junto a pessoas próximas às negociações que o BTG, que também é acionista da Oi, só voltou à ativa nas conversas entre os sócios em meados de dezembro, um mês após a prisão do banqueiro. Embora o banco diga que a proposta está praticamente pronta, os sócios ainda não sentaram para definir os termos da possível fusão.
Nem mesmo o valor do investimento a ser feito pelos russos está acertado. O fundo se comprometeu a injetar até US$ 4 bilhões na companhia pós fusão, o que daria cerca de 40% de participação. Mas isso se nenhum dos acionistas quiser acompanhar o aumento de capital —um dos pontos que ainda não foi definido entre os sócios.
A possível fusão, ainda segundo fontes que participam das negociações, será complexa. Por isso, as empresas decidiram contratar em janeiro mais dois bancos para assessorá-las, junto com o BTG.
Quatro instituições já se habilitaram: Morgan Stanley, UBS, HSBC/Santander e Barclays. Quem fechar contrato poderá liberar linhas de crédito entre US$ 500 mil e US$ 1 bilhão para ajudar na própria negociação de fusão caso haja alguma necessidade.
Com mais consultores, os sócios também querem evitar que aconteceu na fusão da Oi com a Portugal Telecom (PT). Quando o processo estava quase concluído, descobriu-se uma dívida escondida na PT de € 847 milhões e que quase inviabilizou a fusão.
BARREIRAS
A Telecom Italia, dona da TIM, vê o negócio com desconfiança, embora reconheça o potencial da transação. Para ela, é muito difícil hoje avaliar quanto vale a Oi. Um dos pontos considerados nebulosos são os bens ligados à concessão (telefonia fixa), um serviço público. Sem saber exatamente quais são esses bens, não dá pra precificá-los.
Outra barreira à fusão são as recentes alterações no comando da Telecom Italia.
Em meados de dezembro, a Telecom Italia aprovou a entrada no conselho de quatro representantes do grupo francês de mídia Vivendi. Agora são 17. Antes, eram 13.
Essa mudança estava prevista para maio de 2016, mas os franceses fizeram pressão depois de ampliarem sua participação para cerca de 25% das ações da tele italiana.
A Oi e o LetterOne acreditam que a Vivendi consiga pelo menos 9 dos 17 votos do novo conselho para aprovar a fusão da Oi com a TIM. Mas os franceses adiaram a primeira reunião do conselho em que o assunto seria colocado em discussão, um sinal de que ainda não haveria consenso.
Para os italianos, há chances de que a prioridade do novo conselho não seja a fusão com a Oi. Para eles, a Vivendi poderia ganhar mais se focasse investimentos na Itália. A grupo francês venderia seus conteúdos para
TV paga, um mercado praticamente inexplorado na Itália. A Vivendi é dona dos estúdios Universal.
NEGOCIAÇÃO
Antes das mudanças no conselho da Telecom Italia, os termos da proposta da Oi já estavam sendo alinhavados em conversas de bastidores. Ainda segundo apurou a reportagem, os italianos tinham algumas exigências. Uma delas era manter-se de alguma forma no controle da operadora pós fusão para poder lançar os resultados em seu balanço –o que permitiria controlar o endividamento da matriz.
Os russos do fundo de investimento LetterOne se comprometeram a colocar US$ 4 bilhões na Oi se a fusão com a TIM sair, mas também querem estar no comando.
A solução seria resolvida por um acordo de governança. A proposta do BTG é a de que o comando seja definido no conselho de administração de forma similar àquela encontrada no passado, quando a companhia se fundiu com a PT.
No caso, a Telecom Italia poderia ter controle operacional definido nesse acordo, o que já seria suficiente para que ela pudesse registrar os resultados em seu balanço.
Enquanto isso, o BNDES , que também é acionista da Oi, trabalha nos bastidores para convencer o governo a mudar o marco das telecomunicações, transformando os contratos de concessão em termos de autorização –o que causaria uma redução de custos operacionais. O assunto está em consulta pública, mas, ainda segundo apurou a reportagem, o governo já sinalizou em favor das operadoras.
Consultado, o BTG não quis se pronunciar.


Fonte: Folha de S.Paulo

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